Segunda, 06 Setembro 2010
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  Fogo que arde... sem se ver

 

 

  

 

Os devastadores incêndios de Agosto, que já causaram a morte a dois bombeiros, já são uma tradição do Verão português. Somos, para o bem e para o mal, um povo rendido à tirania das tradições.

Somos o país que arde e reage ao fogo. Gastamos rios de dinheiro em projectos, estudos e projectos para estudos disso e daquilo. Gastamos ainda mais em obras que poucos sabem para que servem e, depois, somos o país que tarda em definir uma conveniente política estratégica para a floresta, um país que não age por antecipação, que não limpa a floresta, que não gasta um tostão em aceiros e caminhos pelo meio das nossas montanhas e parques naturais.

Habituámo-nos a olhar para os incêndios como uma fatalidade nacional, encolhemos os ombros, rezamos, crentes e não crentes, para que os bombeiros actuem depressa. Depositamos nos seus ombros a total responsabilidade de nos livrarem deste mal que nos assola com uma brutalidade que só não é mais nociva porque já a inscrevemos no calendário. E se os bombeiros não chegam a correr e com, pelo menos, dez carros para salvar uma casa construída no meio da floresta (e geralmente com mato à volta) são acusados de mau profissionalismo. É rotina.

A época dos fogos começa sempre da mesma maneira e conhece sempre o mesmo desfecho. Discutimos os meios, politizando os argumentos, andamos às cabeçadas sobre quem manda em quem, esgrimimos convicções sobre o valor do dinheiro que queimamos em aluguer de aviões. Sobre o que realmente importa discutir, zero. Nada.

Os fogos, para nós, são entidades abstractas que emergem da bruma a partir de Julho e recolhem em Setembro. Debater a limpeza das matas no Inverno soa-nos quase insultuoso (para quê, se está a chover?), desenvolver programas de treino para os bombeiros meses antes de as sirenes soarem nos quartéis seria extemporâneo, porque nos habituamos a que eles, por via da sua bravura, ajam, por vezes, muito com o coração e pouco com a cabeça. Preparar as populações para evitar incêndios e actuar em caso de necessidade imediata é coisa sem nexo para quem manda.

Disse o ministro da Agricultura que “temos que perceber que a floresta é um bem público acima de tudo e quando não é feita a limpeza esse facto penaliza não só o proprietário, mas também a população, e temos de analisar medidas mais duras”. António Serrano falou em alteração das medidas de gestão da propriedade privada e de uma reestruturação fundiária mais corajosa, que poderá passar por o Estado ter mais responsabilidades nas propriedades privadas deixadas ao abandono.

O ministro tem razão. Mas também é verdade que, tal como Paulo Portas reclamou, o Estado é também um mau gestor da sua própria floresta. Sendo o Estado o maior proprietário da floresta portuguesa deve, antes de tudo, dar o exemplo e limpar o que é seu.

 

 

 

 

O sector primário está hoje, em boa parte, moribundo. Poucas são as pessoas que querem trabalhar na agricultura. A norte do Tejo, a estrutura do país continua a ser de minifúndio, com uma população envelhecida que já não tem capacidade física e financeira para conservar e limpar a floresta, pomares e outras fontes de rendimento. Trinta e seis anos depois da revolução de Abril de 1974, continua a desertificação do interior do país e a fuga para o litoral e as grandes cidades (caóticas), o que constitui um claro falhanço do regime democrático. Este é um tema que deveria ser objecto de profunda discussão cívica, mas isso não é fácil num país endividado, tristonho e aparentemente indiferente, a banhos no Algarve.

O estado de limpeza das bermas das estradas, praticamente em todo o território do continente e a prova como está o país profundo e como nada se faz para melhorar. O mato seco chega a ter quase dois metros de altura junto a estradas perto das manchas florestais. Basta que passem alguns condutores e cidadãos (criminosos) que deitam cigarros acesos para a estrada e bermas para que um enorme incêndio aconteça.

É óbvio que os criminosos têm de ser duramente castigados. Não se entende porque num país a arder um juiz mande cá para fora um suspeito. Não pode! Há que ter bom senso nestas matérias.

Mas não são os únicos culpados. Os culpados não são apenas os maluquinhos que vão atear fogos ou os governantes (autarcas incluídos) que deveriam ter feito assim ou assado. O culpado é o povo que faz fogueiras em parques nacionais, que lança foguetes nas romarias e festas de Agosto quando o mato está autêntica pólvora, que deita beatas acesas para a estrada, como vejo todos os dias. E face à passividade perante tudo isto, os culpados somos todos nós. 

È importante que haja uma autoridade que obrigue a um ordenamento florestal. Se o Estado promover, em associação com os municípios e proprietários, modelos de gestão de floresta que reduzam os custos de manutenção e aumentem o rendimento económico, pode reduzir os riscos de incêndio e aumentar o PIB do Interior, cada vez mais abandonado. É preciso que o exercito colabore na abertura de estradas, que as autarquias limpem as bermas, que todos contribuíam para uma floresta segura.

O tempo aperta, em cada Verão que passa a floresta é pasto fácil para as chamas e até 2013 ainda há fundos comunitários, até agora desperdiçados, que podem pagar esse reordenamento florestal. Basta que todos saibam dialogar.

Para terminar, é lamentável que com o Parque Natural da Serra do Gerês a arder há mais de uma semana, com a Serra da Estrela a ser destruída, com o fogo a dizimar o distrito de Viseu tenhamos visto José Socrates e Cavaco Silva a banhos. Apenas tiraram algumas horas das suas “descansadas” férias para vir a Lisboa falar com a Protecção Civil Nacional e dizer que confiam nos nossos bombeiros. É pouco. Portugal merecia governantes mais atentos às suas populações.

 

 

 

Paulo Jorge Oliveira

Director de Informação do Jornal Impacto da Região

 

 

 

 


 

 

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